Até um dia destes, avô
Quero deixar escrito como me vou lembrar sempre do meu avô. Era um homem humilde e muito reservado. Passava despercebido na aldeia, mas creio que tinha o respeito do povo como alguém de quem não havia nada a apontar. Era fácil apanha-lo a ler a Bíblia em casa ou a orar debaixo de uma parreira.
Sou um privilegiado porque vi a luz que tantas vezes parecia escondida debaixo do alqueire. Há muitos anos atrás trabalhei com ele durante o verão no seu ofício de pintor. Era o mestre e o aprendiz, nem mais nem menos. Ele ensinou-me a arte de pintar em madeira e cimento, ao rolo e ao pincel. As paredes pintadas por ele distinguem-se por textura entrelaçada, criada pela passagem trincha meticulosamente perpendicular entre demãos. Pode parecer estranho, mas consigo ver a mão do meu avô numa parede tão claramente como a de um artista num quadro.
Mas nesse ano não aprendi só a pintar. Já sabia como o meu avô lidava com as pessoas lá em casa, mas vê-lo a falar com patrões e colegas foi conhecer uma pessoa nova. Aí ele brilhava. Eu vi o seu exemplo de humildade e santidade deixar outras pessoas envergonhadas, sem que para isso ele tivesse que dizer coisa alguma. Independentemente de quem estivesse lá para ver, ele passava o excedente da hora de almoço em oração.
À medida que fui crescendo no conhecimento do Senhor, apercebi-me de uma coisa: da mesma forma que consigo olhar uma parede e ver a mão do meu avô, consigo olhar para o meu avô e ver a mão de Deus.
Até um dia destes, avô ti Urbino.

Nunca sabemos o quanto amamos uma pessoa até ao dia em que somos chamados a prová-lo. Não sabia o quanto amava o meu pai até sentir que nos iríamos separar e que esse dia estava cada vez mais perto.
O meu pai foi um homem manso e humilde de coração. Era incapaz de reivindicar os seus direitos pelo medo que tinha de criar atritos ou inimizades. “Não gosto de guerras! Sou completamente contra as guerras”, dizia ele. E assim viveu: sem guerras e sem inimigos. Um homem bom.
Não gostava de incomodar ninguém. “Não nasci para pedir”, e procurava desenrascar-se sem ter de ocupar os outros. Quando se via obrigado a pedir-me alguma coisa, quase se sentia humilhado por ter que dispor do meu tempo. E só o fazia se não tivesse mesmo outra hipótese.
Agora está com o seu Senhor a Quem ele procurou e se entregou há muitos anos atrás e a Quem serviu pela sua vida e testemunho. Mas eu sei que um dia nos vamos reencontrar e não nos voltamos a separar.
Obrigada por TUDO e até um dia destes, pai.